Sonho... Só sonho...!
Vamos nós num barquinho de papel... Flutuando pelo riachinho dos sonhos lindos.
Branca, a lua, brilha sorridente para a menina, também branca, que de olhos fixos em São Jorge pede pro dragão não despertar. Suave, vão beirando as margens por onde os olhos, do agora menino, abertos reparam aquela pessoa a espiar a lua. Á sonhar, não percebe o estranho a lhe olhar, a estranha.
- Posso pegar uma carona nesse sonho? Ela ainda longe na viagem vigia a lua que, lenta, muda de lugar.
- Ei, só uma caroninha até os meus sonhos! Como se a lua se apagasse, se ajeita no barquinho e raspando a garganta...
- Não. Quer dizer... To indo para os meus sonhos. Os seus... Não sei...Quais são os seus sonhos? Será que são parecidos com os meus? Não. Você não me parece uma pessoa que tenha sonhos. Além do mais por que teria que dar carona a uma criatura que quer passear no meu sonho em busca dos seus sonhos?
- Mas... Só queria...
- Não. Não estou com tanto tempo assim pra dar carona pra ninguém. Se ainda tivesse vindo nos meus sonhos passados... Não estou gostando dessa invasão, não. Acho bom você dar o fora. Senão vou chamar o pai dos sonhos pra encher você dos sonhos seus e espero que goste muito deles! Porque eu adoro, os meus!
Pegou o remo e logo o barquinho se afastou riacho abaixo. O menino, ligeiro, acompanha pela margem se entranhando pelos galhos, sem perder de vista aquela que sem olhar pra traz vai remando os sonhos... Seus!
- Será que não tenho sonhos, mesmo? Parado. Abraçado a uma árvore sem folhas e sem galhos... Um tronco: seco, comprido e alto que levava a algum sonho. Para quem quisesse e pudesse buscar. Era só chegar lá e pegar. Pensou em escalar... Por um instante... Perdeu dos olhos a menina.
- Ei! Parece que aqui tem uma porção de sonhos. Cansada de remar parou sem olhar pra traz.
- Se tem sonhos aí são todos seus. Os meus eu vou seguindo. Sei onde estão, e como encontrá-los. Pelo seu jeito preguiçoso de me seguir acho que não vai querer subir aí pra buscar seus sonhos.
- Não, não é isso. Eles não estão aí, os meus. Têm dos outros pra gente dar uma olhadinha, Não acha legal reparar o sonho dos outros?
- Deixa o sonho alheio!? Preocupe-se com os seus. O que acontece com você?
- Nada... Quer dizer... Tudo, por que não? Sim. Vai que sobra algum sonho esquecido por aí... A gente aproveita e pega... Pra gente não ter de suar tanto, pra conseguir o nosso.
- Putz! É como eu imaginei... Não tem pernas nem pra correr atrás de seus sonhos... E quer se apropriar dos sonhos dos outros. Ah... Deixa me mandar que com você eu não chego a lugar algum. Tenho compromisso com meus sonhos. Tenho futuro!!!
cont...
O menino ficou pensativo. Sentiu-se trincado. Truncado. Sentou-se calado. Preocupado por não ter futuro. Será que não tinha mesmo? Olhou para a menina e acenou... Tomara que encontre.
- Bons sonhos! Encontre logo o seu futuro. Que merda, pra quê alguém precisa de futuro? É tão bom viver hoje, o agora... Ah... É que ela não sonha o sonho que eu sonho. Só pode ser isso. O sonho dela é diferente, por isso. Eu sonho um sonho que nunca foi sonhado. Um sonho só meu, e acho que nunca vou achar esse sonho. Ela só sonha sonho achável... É isso... A menina e o barquinho já iam longe...
- Ei, pessoa! Pessoa!! Espere aí. Preciso de uma resposta sua. Não fica brava comigo, não. É que eu preciso saber de uma coisa. Só uma perguntinha. É sonho sonhável o seu sonho? Ou é desses sonhos que a gente imagina e pronto?
- Não... É desses que a gente imagina e pronto, esquece e deixa pra lá! Ah... vai! Você é uma coisa. Meus sonhos não caem do céu, não. Vem de mim mesmo, do meu querer, do meu pensar, do meu realizar, do meu conquistar. Do meu... do meu... Saco cheio de aturar pessoas como você...
- Ah... Não precisa se zangar. É que nunca aprendi a sonhar assim. Não me ensinaram a ter esses sonhos pensados. Meus sonhos são todos impossíveis de serem achados. Ando procurando, mas é um caminhar pra lá e pra cá... E nada. É difícil. Não sei em que raio de escuridão eles se esconderam... E eu tenho medo de escuro. Rezo sempre pra lua não ir embora... E nessa brincadeira o tempo passa e sinto que não quero mais sonhar...
- Fecha os olhos e faz de conta que a lua sempre está lá, a espiar... Começa a enxergar no escuro. É um bom começo pra procurar os seus sonhos. Vamos! Fecha os olhos e imagina onde possam estar presos, os seus sonhos...
Quem prenderia os sonhos de uma criança? Essa menina tem cada idéia. Os dois conversaram, ali, em meio ao vento leve que mexia as folhas das árvores plantadas a beira do riacho. O menino adormeceu. Encostados num tronco, ela olha e tenta imaginar os sonhos dele. Por que será que ele a segue? Por que não vai para outro lado? Pensativa, com medo dele se apoderar dos seus sonhos... Dorme.
- Onde vai, menino? Não é por aí. Tenha calma. Pode abrir os olhos agora. Estou aqui e o sol já brilha alto. Não vai ser difícil encontrar os seus sonhos. Acredite em mim.
- Nossa! Que lugar é esse? Por que você está aqui? Você me trouxe até aqui pra quê?
- Eu não trouxe você. Você sonhou. E já que estamos juntos, vou ajudar a encontrar os seus sonhos.
- Ah que ótimo. Mas esse sonho não é meu. Não vejo onde encontrar meus sonhos nesse sonho que deve ser seu.
- Meu? Ah... vai! Eu não ia perder meu tempo em sonhar pra você um sonho que não me interessa. Ih... já estou me confundindo toda. Só quero ajudar você encontrar seus sonhos. Não quero participar deles. Somos diferentes e nossos sonhos também. Olha, vai seguindo seu coração... Ele vai indicar o caminho dos seus sonhos... Adeus.
- Não, não vai assim... Brava! Espera a gente acordar. Quem sabe seus sonhos se apaixonam pelos meus e me esperam na hora em que eu acordar juntinho de você... Ah... Espera. Hum!?
- Eu não tenho tempo. Essa hora não é a hora pra eu sonhar. Cada qual tem sua hora. E essa é sua... Remexe em suas gavetas... Nos seus cadernos... Nas suas fotografias... Ah... Em tantos lugares você pode encontrar... Não só sonhos, mas também lembranças que vão te alimentar outros sonhos... Só não vale voar... Você já é muito avoado...
- Você é tão linda! Pena que te encontrei antes de meus sonhos. Não tive tempo de sonhar com você. O que será que acontece se nosso sonho se realiza antes de ser sonhado? Hum!
- Você está tentando me confundir. Mas não vai conseguir. Vamos acordar, vamos. Você tem uma porção de gavetas e cadernos pra revirar. Quem sabe sua mãe pode lhe ajudar. Já perguntou a ela sobre os sonhos dela?
- Ah... Não. Quero saber dos meus. Os dela já estão envelhecidos e muitos nem vivos tão mais. Acha que sonhar tem tempo? Você tem medo de se atrasar no tempo? Tem dias que pensar leva tanto tempo. Tem pensamento que dói, sabia? Dói e dá vontade da gente não pensar. Vontade de ir sumindo... Cochilando e ir dormindo e dormindo... E talvez sonhar... Com alguém bem linda, assim como você...
É melhor acordá-los. Quem sabe o que pode acontecer com esses dois doidinhos de Deus... Sonhadora! Sonhadora, é a sua vez... Acorda. As águas correm abaixo, e o rio se renova a cada instante. E sonhar acordado é melhor ainda. Deixa o menino dormir. É o seu primeiro sonho. Segue o seu caminho riacho abaixo. Quando ele acordar digo que você foi riacho acima.
- Você faz isso por mim?
...é, eu não vou nada bem! Eu fui muito além. Acreditar na impossibilidade do Ser muitas vezes me leva a estar a duvidar do Amar. Agora, enlouquecido e enlouquecendo, fingindo, escapulindo da dor, enfraqueço, pereco, mas, assim, pareço, mesmo que comigo. Também pudera, já era tempo de redescobrir a galera! Alegraria sentir a alegria ?
...é, bem verdade que quando se acorda de um sonho bom os olhos se abrem vagarosamente na descoberta de que estamos vivos e bem. Quando de olhos abertos nos deparamos com o que é ruim aos nossos anseios, contrário às nossas verdades... Nos lançamos em sonhos acordados, motivados pelo ciúme, pela angústia, pela necessidade do pesadelo à claridade da razão.
...é, então, por que tanta necessidade de inventar imagens, criar roteiros mirabolantes de histórias não acontecidas, não vividas... histórias que se passam somente em nossa imaginação? Que tamanha vontade é essa de projetar no imaginário aquilo que na realidade não se concretiza nem no pensamento da pessoa amada, nem das que a rodeiam, e muito menos no mundo fictício do inconsciente de quem nos adora ou nos odeia? Adoraria que não povoasse o meu cérebro, palavras soltas que vão se encaixando e montando mentiras, verdades para mim mesmo com mentiras de mim mesmo para mim mesmo.
...é, mas nem todo mundo é igual. Ninguém copia nada de ninguém, mas todo mundo imagina coisa de alguém, todo mundo é um tanto de alguém, todo mundo é um quanto de alguém. Ao mesmo tempo que ninguém é ninguém. Mas concordo que sempre resta alguém que não é nada de ninguém.
...é, não sei o que acontece. Sinto que os pés sobem pra cabeça e a cabeça desce pros pés, e as mãos tentam apoiar a fronte numa tentativa desesperada, mas não conseguem alcançá-la - a cabeça, para apertá-la, maltratá-la, arrancar os cabelos se necessário, mas o abdômen não dobra para que possa até mesmo acariciá-la - a cabeça! De cócoras? Não!!! Então, as mão ficam soltas, com os braços levantados para o alto, num bailado esquisito, num can-can emparelhado com os pés.
...é, mas é assim mesmo a vida! Todo homem tem seu dia normalíssimamente doido. O dia em que casa cai, o cérebro cai, a cabeça cai, o pinto cai, o peito, tudo cai. Cai por terra todos os sonhos, virtudes, mazelas, bobagens da adolescência, vontade de beijar a mãe, o pai, o irmão, o avô, tudo vai embora num vôo nem sempre sereno.
...é, só quero fazer um desabafo, um punhetar de palavras bobas, sem nexos, mem sexo, sem nada. Palavras vomitadas, mijadas, cagadas, prontas para serem degustadas. Pela boca? Melhor, não! Pode ser que tenham lugares mais interessantes para degustação. É tudo uma questão de experimentação, né não?
...é, mas a coisa não pára por aí. Tem outras coisinhas que não cabem no poema, como disse Gullar. Mas como não estou aqui poemando vou deixar de lado assuntos tão úteis e discutíveis para nós cabeças descabeçadas ou descabaçadas, descabeladas... des- des- des – dez, dez seria melhor dez cabaçadas, dez cabeçadas, dez cabeladas, dez, somente dez...
...é, vejo que o dia tá passando, fecham-se as cortinas, e como não há bandidos, vou embora tarde... não acredito no meu amor, então vou mais tarde ainda... quanto mais cedo chegar, melhor!
...é, tô a suar, acredito que tô... febre. Tô... febre... Com tosse... tô, febre, sei não. Um conhaque São João, da Barra ou não, talvez limão... Tô Febre!!! Sem amor, sem perdão... sei não... sei não.
...Eta tosse danada! Com ela veio a vontade de desistir, de continuar o desabafo. Ela chateia, espreme os nossos olhos... sem contar as narinas vazando como se... não bastasse esse calor que sobe pelo corpo e de repente some em calafrios... pelo amor do Jota Cê, carrega essa coisa pra lá e me deixa pensar em paz. Coisa chata! Orra!!!
...é, devagarinho vou aumentando o meu desabafo, até porque não tenho pressa, não estou desabafando para ninguém, a não ser pra mim mesmo, e se possível depois escondo o próprio desabafo de mim, porque às vezes é bom não bisbilhotar no desabafo com a gente mesmo, sabe?
...é, são tantas palavras que já perdi a conta. Seria capaz de contá-las quantas são até agora? Não? Pois eu seria. Tenho todo tempo do mundo. E vou contá-las quando achar que cheguei no final. São tantas mais, ainda há tantas para serem pensadas, repensadas, desafiadas, afiadas, esmiuçadas... que nem sei.
...é, sabe de outra coisa: é difícil amar o inesperado, sentir a surpresa não é sempre bom para certas pessoas, até porque nem sempre os que fazem surpresas, estão querendo fazer surpresas, eles fazem de conta que estão surpreendendo, mas no fundo não querem surpreender ninguém, eles apenas querem, e pronto. E tem outros que se sentem surpreendidos com determinadas ações, chegadas repentinas de não sei quem que não se queria ali naquele momento, ou em outro momento qualquer, e faz-se de conta que fora surpreendido e fica-se feroz, voraz com a presença avassaladora do abominável ser surpresa.
...é, mas deixa isso pra lá. O pensamento é só um pensamento. Tudo coisa atoa. E como tô atoa vô nessa, escrevendo sem assunto, sem inspiração, até porque não acredito em poeta inspirado, aspirado, ou pirado. Poeta é poeta e pronto. Eu sou uma besta e pronto. Vou escrevendo minhas besteiras para mim mesmo quando quiser ficar com raiva de mim mesmo, ou quando quiser aliviar a saudade... dela, ou daquela, não importa, vou dizendo que amo, aqui e ali, ora amo, ora não, e vai-se levando a vida, amando, desamando... cheio de alma e muitas vezes desalmado.
...é, moça, agora o desabafo começa a tomar direção. Percebo que menti ao dizer que desabafava só pra mim mesmo. É nada. Tem endereço certo. É que às vezes não vale a pena direcionar. Deixar solta as nossas idéias parece mais interessante. Repentinamente serve para outras pessoas à procura de desabafos. Vai que encontram o desabafo certo, na hora certa, mesmo que não seja dirigido à ela? Então vou dizendo e desdizendo o que quero, o que não quero, e o que nunca vou querer, mesmo querendo o que não quero.
...Se eu disser que neste momento sinto saudade não é mentira. É uma grande verdade. Mas o que é saudade? Não cabe aqui explicar, é apenas uma necessidade de sentir falta de alguém, ou poderá ser de alguma coisa? Coisa não. Coisa é muito sem sal sem açúcar para se sentir saudades. Tô com saudade de pessoa mesmo. Branquela... Linda.
...é, aqui entra um personagem claro, branco, quase transparente de tão branco. Então, já começo a desdizer o que disse antes. Não é um mero desabafo. O desabafo tem rumo certo, tem direção franca e branca. E o que dizer dessa brancura louca que invade e transforma meus pensamentos em palavras tolas, soltas e agora dirigidas, pensadas, cuidadas para não ferir ou desferir com golpes duros o amor que sinto pelo claro, pelo branco, pelo quase bronze!
...é, é nada! Diria ela a Vaguéniar. Mas sou teimoso e continuo a brincar com seu sorriso lindo, liso, irônico quando as sobrancelhas sobem e se curvam. Sou teimoso e continuo a brincar com meus sonhos que ora são dela, que ora são só meus e de mais ninguém. Continuo a brincar com a possibilidade do amor a dois, somente a dois, quando o outono vier. É, porque a primavera está aí e pode atrapalhar tudo com seu cheiro de flor. Mas são conjunturas do amor, e não quero pensar nas estações... quem sabe o verão seja condescendente e me perdoe as escapulidas para o amor! O inverno? Deixa pra lá, prefiro ficar embaixo do cobertor aquecendo o cantinho para quando o meu amor chegar.
...é, claro que a falta provoca a dor, a ausência na hora errada provoca o ciúme exagerado, e por pouco pode-se perder o grande amor. Mas não seria grande se não fosse ciumento, exagerado, carregado de contradições, oras bolas! O contraditório é tão necessário que se ele não aparece na minha frente eu corro atrás dele para aquecer o amor que tenho pelo meu amor. Quando amo, amo e pronto. Dane-se a dor. Não quero simplesmente agradar. Não tô aqui para água dar a ninguém. Quem quiser que me agrade. Fico agradecido. Quem não fica? Mas me deixa ser o que sou e amar do jeito que aprendi a amar?! Não me venha despirocar mais a minha cabeça, já tá de bom tamanho o meu cabeção cheio de juizo. É, porque sou um cara ajuizado, tenho pra dar e vender, mais para dar. Pra falar a verdade, não consigo vender nada, não sou vendedor de nada, nada, absolutamente nada. Mais vou vivendo sem vender nada. Também não estou comprando nada, muito menos amor. Quem quiser que me ofereça, afinal de contas, tem tanta gente oferecida por aí.
...é, o que eu quero mesmo é ficar assim, parado, pensando no branco que me fascina, me ilumina os olhos de tanto brilho. Pensa que é fácil carregar a bateria da alma para fazer os olhos brilharem? Né não! Tem hora que a coisa vai pro brejo. Não sei o que acontece com o carregador, a pilha enfraquece e o brilho acaba, e é só solução aquosa, salgada, num chororô que dá dó. Mas também é preciso, talvez seja um lubrificante para que os olhos possam brilhar cada vez mais, e mais. Só posso garantir que tudo isso leva e eleva a vida, com ou sem brilho nos olhos. Sou de lata não. Tenho tic-tum no coração. Então, vou correndo pela vida cantando, tossindo e chorando quando me dá vontade. Quando tô febre aí gosto não. Fico triste. Mas vamos por aí tossindo... tosssindo... e amando o dia e a noite toda branca.
...é, mas é bom ter bem pertinho de si o branco, ou a branca que mexe com nosso sistema central, não sei se nervoso, de qualquer forma é sistema, e sistema foi feito para ser quebrado, então vamos romper todos eles. Claro que dói, mas se não desafiamos as mesmices do amor, como encontrar um novo amor? E assim vamos criando sistemas que nos leva a lugar nenhum, e nessa busca idealizamos o nada, que não nos leva a nada, e assim vai... Vamos amando que é o que importa, é o que vai gratificando e engraxando a vida, e liso vamos deslizando sobre a terra, nos molhando aqui e ali, para poder continuar a trajetória louca até o fim dos dias, e das noites também.
...é, somos o que somos, e vamos engolindo as desventuras que a existência oferece, e se não fosse assim, só seria assim, e assim... digo sim, e também digo não para poder permanecer sempre assim: assim!
...é, mas não é bem assim não, tem dias que a gente enfia os pés pelas mãos e acaba dizendo, fazendo bobagens, besteiras. É como se a mente fosse invadida por outros tantos bichos e conduzindo nossa vontade, nosso desejo. É como se quisesse que disséssemos, fizéssemos, o que não queremos, ou que talvez até esteja instalado em algum canto de nós mesmos, não sei, ou talvez saiba sem querer saber. Isso magoa uns quantos e tantos que nos cercam, mais aqueles que estão mais próximos de nós, e quando sós somos obrigados a remoer, remoer e procurar entender o incompreensível. E nessa, vamos nos desculpando e desculpando o que não tem por que desculpar. É melhor permanecer culpado e engolir o sal, a saliva amarga da intolerância? Sei não, mas promete ser longa a busca dessa minha deficiência cerebral.
...é, a coisa parece simples mas fica confusa quando diante do inexplicável temos que definir as besteiras ditas, faladas, expressadas com convicção e logo após o primeiro sono ter que desdizer ou simplesmente não ter o que dizer, por não lembrar ou por não querer lembrar.
...é, a frieza nas palavras muitas vezes dói mais que a aspereza, é tudo quanto posso expressar neste momento de indecisão. Não sei se fico ou se pego o primeiro bonde em direção à lua, ou marte, sei lá. Tudo fica nebuloso quando não sabemos o que de fato acontece na cabeça das pessoas, principalmente quando elas se comunicam com meias palavras, interjeições vazias, que levam o ouvinte a lugar nenhum. Mas, tudo bem, tudo de bom, é o que espero que aconteça nessa noite maravilhosa, gostosa pra se tomar um bom porre, e se entregar aos devaneios etílicos na madrugada.
...é, mas veja como são as coisas! Não há meias palavras, eu é que sou uma besta e invento as meias, quando as tenho inteiras. A noite foi realmente quase maravilhosa. Foi inteira, isso foi. E inteiro fico eu por não conseguir me livrar do amor. É que quando não se quer mais amar ninguém, de repente aparece um narizinho vermelho para apalhaçarr a vida da gente. Na verdade o apalhaçar é um avivar de alegria, uma mistura de desejos e um renovar de alma, um momento de elevação do espírito e rejuvenescimento da matéria. Mas não quero falar de amor. Chega. Tô ficando mole! Quero dizer coisas que não sei explicar, que não sei dizer, que não sei... não sei. Só sei que sofro, que dói quando não compreendo e sonho com o insonhável. Que me perdoe o Rosa e o Veloso, mas também posso insonhar!
...é, essa coisa de não querer amar incomoda o ser amado, ou a ser amada. Porque o outro lado também ama, e não gosta que o lado de cá fique murmurando que não quer amar... Talvez esse murmúrio seja para aliviar o medo de perder o amado ou mais precisamente a amada. É terrível imaginar que ao acordar não se tenha mais aquela figura branca, quase transparente pra falar tantas quantas vezes sentir vontade: eu te amo! Mas cá estou eu de novo falando de amor. Não quero falar de amor. Parece que só vivo para o amor! Que coisa...
...é, ela, a branquela, virou minha cabeça de ponta-cabeça. Mas cabeça pensa independente da posição, seja de pé, deitada, seja lá que lado for. E assim, vou forrando minha vida de todos os lados pra amenizar a dor. Por que é que a gente tem que sentir dor? O indivíduo sente dor de tudo que é jeito. Dói por dentro, dói por fora, e vai doendo a vida inteira, desde pequeno. E quando dói só nos resta chorar. E chorar alivia alguma coisa? Sei lá! Tem gente que não chora. Eu choro. Sou chorão. Choro por qualquer coisa. Não precisa ser beijo de novela, não, como diz Zeca Baleiro. Qualquer coisa. Um tiro de bang-bang, o bandido caído... É melhor mudar de papo, senão começo a chorar.
...é, pessoa, mesmo sem chorar tem hora que dá uma vontade de correr, correr, pra não mais voltar. Mas sempre tem volta, tem. A gente vai e quando pensa que não tá de volta, no mesmo lugar, como se nunca tivesse saído, sabe como, é ? Tudo parece retornar, de onde saiu. Acho que até as águas retornam e tornam a passar pelo mesmo lugar, grudadas nas mesmas gotas... As vezes tenho a impressão que o mesmo pingo de chuva caiu sobre mim várias vezes. E no chuveiro, sempre tem um pingo gelado que cai, e tenho certeza que é sempre o mesmo chato. Lágrima, tenho também a impress~ssãoque são sempre as mesmas que vem e vão... É como a saliva que engolimos e sempre retornam... Mesmo as que cuspimos devem retornar de algum jeito...Até o mijo retorna... ah! se retorna!!! Tem coisa que retorna de outra forma mas também retorna...
...é, mas assim é a vida. E é por isso que é bela. Ou não! Tem vida que é uma merda desde que brota para vida, e é melhor que não seja eterna, enquanto dure!
Nessa Natal(ih)ce/éia transgordurosa
só o destilado prazer para aliviar o peso psicofísico
do ser nascido/nascente ou por nascer.
E etílico sem a serpentinagem de nada acrescenta
no desvario imagético de meus delírios amorosos.
E assim: pessoa pensa que pensa
na branquálida mulher antoniônica!
Era uma vez uma cobrinha chamada Fifi. Suas amiguinhas morriam de rir quando ouviam o nome dela.
- Fifi é nome de galinha, não de cobra! – diziam as outras cobrinhas.
Ela não se importava.
- Meu nome é muito bonito! – pensava.
No reino das cobras diziam os mais velhos que entre a cobra e a galinha havia uma única diferença: as penas!
- E o bico também – cocoricava as galinhas.
- E as pernas? E os pés? - Indagava a cobrinha.
Fifi era muito feliz!
Seu corpo fino e comprido era colorido. Diferençava das outras. A danadinha era coberta de bolinhas azuis, vermelhas e amarelas.
Vivia passeando pelos jardins com uma fitinha cor de rosa amarrada no pescoço. Vaidosa que só ela! Gostava de perambular, bela, pelo reino.
A casa de Fifi ficava embaixo de uma pedra enorme no Jardim das Laranjeiras.
Adorava subir em árvores. Só tinha um grave problema: não sabia descer. Um dia subiu numa macieira, e caiu lá de cima. Teve que engessar as pernas invisíveis e ficar caxingando de bengalinhas por um bom tempo!
Fifi acordava sempre com um grande sonho: ter um jardim de frutas azuis. Era naturalista. Carne de espécie alguma ela comia. Só se alimentava de frutas. Vermelhas como as maçãs. Amarelinhas como as laranjas. Nem gente ela picava. A única vez que picou o pé de um menino que malinava em sua casinha, ficou com dor de dente.
Um dia vou conhecer novos jardins. Novos amigos. Novas cores. Já imaginaram uma cobrinha cor de rosa? A cor do meu lacinho?!
Lá se foi Fifi pelos caminhos. Foi buscar o sonho: uma fruta grande de cor azul.
Encontrou bichos que nunca tinha visto. Um deles, o seu Cururu – um sapo esverdeado que coaxava na lagoa.
- Olá senhor sapo! Sabe-me dizer onde posso encontrar um jardim que tenha frutas grandes, enormes mesmo, de cor azul?
- Olha aqui, mocinha, que eu saiba por essas bandas da lagoa dourada, dessa fruta não há, não. Nunca ouvi falar. Está procurando essa frutinha para quê?
Frutinha, não. Frutona. Ela é grande. Eu vi uma vez no meu sonho.
Experimenta outras frutas: o morango, a amora...
- Nem me fale! Fico roxinha só de pensar...
- As verdes! Hum?! Experimenta!
- Não gosto. Parecem verdes. Parecem que não estão prontas para comer. Quero uma azul. Igualzinha a do meu sonho.
- Então, sinto não poder ajudá-la. Mas vá por esse caminho da direita. Na lagoa dos patos quem sabe possam indicá-la o caminho para o seu sonho.
Muito obrigado, seu Cururu. Olha, o seu coaxar é muito bonito!
Fifi ia longe e o Cururu ainda cantava todo vaidoso!
Um belo jardim florido despontava no horizonte. Flores de todos os tamanhos. Flores amarelas. Flores vermelhas. Flores azuis. Pássaros brincavam. Pássaros cantavam. Pássaros saltitantes nos galhos das árvores. Um amanhecer alegre, o sol prometia um dia bonito!
- Ei você! Passarinho!
- Eu?
- É. Você mesmo. Por que é que não está cantando com os outros?
- É que não sei cantar.
- Ah, mas não fique triste! É só comer um pedacinho de fruta azul que você vai cantar igualzinho ao “Passaroti”.
- É mesmo? Cantar é o que mais quero! Como os canarinhos... Mas onde posso encontrar essa fruta?
- Não sei. Estou procurando. Quando encontrar trago um pedacinho para você. Não se entristeça. Cante mesmo desafinado.
- Não vá agora. Passe o dia aqui! As nuvens estão lindas e dá uma vontade de voar.
- Dá mesmo passarinho querido. Mas não posso voar.
- Deus não deu asas à cobra, não é? Mas não se preocupe. Carrego-a pelo bico. Depois de um passeio pelo jardim primavera, eu posso pousá-la no riachão.
Medrosa Fifi voava e sonhava com a fruta azul. Despediu-se do amigo e resolveu dormir ali. Pendeu a cabeça para o lado e encostou-se num tronco. A lua estava alta. A noite silenciosa. Ouvia-se apenas o cri-cri-cri dos grilos...
Quase na hora da lua ir embora o tronco começou a mexer. Aí Fifi percebeu que não era um tronco.
Era uma cobra. Grande. Grossa. Pra vocês terem uma idéia ela estava engolindo um boi. Ele estava só com os chifres de fora!
Apesar de ser da mesma família Fifi saiu rapidinho. Sem olhar para trás. Depois de umas boas pernadas encontrou dois caminhos...
- Mi-nha-mãe-man-dou-eu-ir-por-es-se-da-qui, mas-co-mo-eu-sou-tei-mo-as-eu-vou-por-es-se-da-qui!
A estrada da esquerda.
- Eta! Povinho atrasado! Por que não colocam aquelas plaquinhas indicativas?
Fifi caminhou por vários dias. Nesse tempo se alimentou de flores.
Na segunda-feira só como flores amarelas. Na terça-feira, flores vermelhas. Na quarta-feira, como flores azuis...
Na quinta-feira, misturou flores vermelhas com amarelas e ficou com a boca cor de laranja. Na sexta-feira, misturou as flores azuis com as vermelhas e sua boca ficou roxinha. No domingo, pra não colorir a boca comeu salada de flores brancas. No sábado não comeu nada.
- Minha religião não permite!
Quando chegou na Lagoa dos Patos aproximou-se da beirada. Suava de tanto calor. Foi colocar o rabinho na água quando ouviu:
- Ei mocinha! Não faça isso.
- Olá! Muito prazer. Eu sou Fifi e você?
- Sou o Pato-tó! Aquele que não faz quem-quem e não tem gogó! Quero lhe avisar que não deve botar o rabinho na água. A lagoa está repleta de piranhas. O melhor é ficar do lado de fora, olhando e suando... Suando de vontade de tomar banho.
- Como as piranhas vieram parar no lago?
- Ninguém sabe. Ninguém viu.
- Que pena! Se não bastasse a sujeira agora uma dentucinha – a rainha da mordida, pra atrapalhar o lazer de vocês!
- Seu Pato-tó, por acaso o senhor sabe onde encontrar uma fruta grande, todinha azul?
- Não. Azul eu não conheço nenhuma fruta. Nessa região só tem jaca! Tem cada jaqueira por aqui que é uma beleza de árvore.
- É... Realmente é uma pena. Se jogássemos um pedacinho, um pedacinho só da fruta azul no lago as piranhas não morderiam mais ninguém. Aí vocês poderiam limpar o lago e depois nadarem à vontade...
- Linda cobrinha, se você encontrar essa frutinha...
- Frutona!
- Essa frutona! Traga-me um pedacinho, quero dizer, um pedação e uma sementinha, ou melhor, uma sementona pra eu plantar. Nesse calor uma sombra bem grande não há de fazer mal a ninguém, não é mesmo?
Fifi se depediu do novo amigo e foi embora. Lá longe uma placa anunciava: Jardim das Frutas.
- Epa! O povo daqui parece desenvolvido!
Havia as plaquinhas: abacateiros – sigam em frente. Mangueiras – à esquerda. Jatobazeiros – olhem para cima. Melancias – olhem para baixo e não pisem nelas.
- Hum! Que cheirinho gostoso. Cheiro de salada de frutas! Mas não tem o cheiro azul!!!
Fifi banhou-se numa bica que escorria nas paredes de uma pedra. Depois cochilou. Foi acordada pelo cocoricó de uma galinha cinzenta que ciscava e cacarejava brava com a invasão de Fifi.
Depressinha para não levar bicadas Fifi, ó... Fugiu! Deus nos pés! Cantarolando seguiu pela trilha em frente. Lembrou-se do passarinho, do Pato-tó... Havia de encontrar a fruta azul.
Outra plaquinha anunciava: coloque um agasalho! No jardim de inverno faz muito frio! Apesar de pouco agasalhada, Fifi não sentia frio. A sua pele suportava bem aquele jardim gelado.
- “Castelo do Sonho Azul!” – Fifi leu noutra plaquinha, quase que tendo um troço no coração... “Informações com a prima Vera”.
Um burrico passa correndo nessa hora e grita:
- Fuja! Fuja! Fuja cobrinha... O gigante do Castelo Azul está furioso!
- Mas eu necessito falar com ele. Quero uma fruta azul!
- Que fruta que-que nada... Vá-va embora. Ca-caia fora daí. Se-se manda... Eu vo-vou da-dar nos cascos!
- Não. Não posso.
- Tchau me-mesmo! Eu be-bem que-que avisei. Ade-deus!
- Adeus Burrinho.
Os bichos corriam desesperados. A dona tartaruga que é lerda deixou o coelho lá atrás, bem distante.
- Fuja cobrinha, corra também... Que o gigante aí vem...
- Não posso. Cheguei aqui e agora não posso sair assim...
- Está bem! Siga o cheiro das flores e na beira do rio verá um sino. Toque-o. A prima Vera virá! Vá...
Bem, bem, bem, bem, bem!
- Você deve ser a cobrinha Fifi! – disse uma moça cheirosa de cabelos coloridos. Estava à sua espera. Sabia que viria para falar com o gigante dos sonhos azuis. Só que hoje não é um bom dia. Ele está muito bravo. Bravíssimo! Sonhou que uma cobrinha estava a caminho do castelo para roubar o seu sonho azul.
- Ora, ora! Eu não estou aqui para roubar sonhos. Só preciso de uma fruta...
- Azul! Mas ele não pensa assim. E o desejo de maldade do gigante é tão grande que espantou todos os animas do castelo. O gigante está cansado de ter sonhos azuis. Vez em quando ele sonha amarelo... Vez ou outra, vermelho, e só.
Fifi estava se fazendo de forte. Corajosa! E se o gingante desse um pisão na cabeça dela? – Já imaginaram?! Ou então no rabo? Não ia sobrar nenhuma costelinha de cobra para contar a história.
Tum-tum-tum! Tum-tum-tum! Tum... Tum... Tum...!
Fifi olhou para cima, muito alto, e lá estava a cara do grandão. Toda azul. O cabelo azul. As orelhas azuis. Sobrancelhas. Os olhões azuis. O nariz também estava lá. O bocão de dentes azuis arreganhados! A cobrinha tremeu toda.
- Acho que fiz xixi na calcinha!
- Por que você quer roubar o meu sonho, hein?
- Só que-quero uma fru-fruta azul.
- Não minta. Não minta!
- É verd-verda-de! Se o azulado gigante me der uma fruta azul prometo fazer o que o agigantado amigo desejar.
- Você me ensina a sonhar colorido?
- Em troca da fruta eu ensino.
- Então está feito o trato. Palavra de gigante. Ensine-me!
- É só o avantajado gigante misturar o sonho azul com o amarelo que irá sonhar verde; se misturar o amarelo com o vermelho, vai sonhar alaranjado, e misturando o vermelho com o azul irá sonhar roxinho...
- Que maravilha, linda cobrinha! Por que é que não pensei nisso antes? Agora eu vou dormir. Quero sonhar com minhas novas cores.
- Epa, opa, epa! E a minha fruta?
- Volte para sua casa. Quando chegar em seu reino, uma grande árvore de frutas azuis crescerá no seu jardim. Vá. Eu prometo!
- Obrigada, seu gigante. E bons sonhos.
João Ratinho – o canoeiro, ordenado pelo gigante levou Fifi até a lagoa dos patos. Enquanto remava sua canoa pelas águas azuis do reino do gigante assoviava uma canção.
De volta à lagoa dos patos havia um campeonato de pesca para acabar com as piranhas. Todos ajudavam a limpar a sujeira do lago. Pato-tó fazia um discurso pedindo para que não jogassem mais sujeira no lago: preservar a natureza é um dever de todos! E assim as piranhas foram parar na frigideira.
Quando Fifi encontrou o passarinho, cantava a mesma canção do João Ratinho – o canoeiro. Mesmo desafinado ele agora era um pássaro alegre.
- Ei amiguinha. Obrigado, mas não necessito mais da fruta azul. Não quero mais ser cantor. Descobri que gosto de fazer casinhas de barro... Mesmo desafinado eu sou feliz!
Ainda distante da casa de Fifi já se avistava a grande árvore no jardim das laranjeiras. Era tão alta. Tão alta! O vento balançava os galhos, as folhas e fazia assoviar aquela canção.
Nem bem cumprimentou seus amiguinhos que olhavam assustados para a árvore e já subiu às pressas. Foi subindo, subindo... E a canção foi se avolumando...
E Fifi nunca mais quis descer da árvore.
Daquele dia em diante o gigante só sonhou colorido.
A cobrinha de bolas vermelhas, amarelas e azuis, agora era também verde, laranja, roxinha e branca. Coloria o sonho do gigante todas as noites enquanto o vento assoviava a canção que tomava conta de todos os reinos.
Luz.
Ponto de encontro
Entre o claro e o escuro.
Ponto de Cultura.
Ação.
Minimização que ilumina.
Maximização que setembrina.
É ela o elo
Entre a lua e o olhar.
Um claro no Escurobelo,
Clarabela que descortina
A Escuridão. A Exclusão.
Luz.Ação
Imensa teia da Inclusão
Que desvirgina.
Há meninos. Há meninas
Na escalada da escada
(outrora trilha)
rumo à escola que cala
Hoje e Amanhã
Isso é que não Cola.
Luz.
Bandeira que, castroalveando,
“Impudente na gávea tripudia”.
Ação.
Para os Alves, para as noites,
Para os Dias, para os Cruzes,
Para as manhãs, para as tardes,
Para os Azevedos, para os Machados,
Para as Cecílias, para as Adélias,
Para as margaridas, para as camélias,
Para os Moraes, para os Andrades,
Para os Melos Netos, Djavãs e Gils.
Luz para todos.
Todos para a luz.
Ação!
Sentia nada não, o danado. Só dor no peito. Aí, havia jeito não. Nas costas também. Dor de dente nem sentia. Vez ou outra, sim, quando comia doce.
Hein? Dor de estômago? Ah! Não conta, desde moleque doía, ‘tava acostumado, vivia mamado; levava uma vida desmiolada mas todo mundo dizia: eita home de vida regrada: deita tarde e levanta cedo, come mal e bebe bem cerveja, caipirinha, conhaque... todas, a noite toda!
Foi numa dessas noitadas... Nessas de sábado pra segunda... que deu entrada no P.S. Central saindo da viatura de braços dados com vários soldados: gemia, a perna doía, muito... E devia doer muito mesmo porque Laudelino era mole mas não dava o braço a torcer, muito menos a perna. Qual? Esquerda, que Laudelino não era homem de direita!
Zoeira doida aquela de fim de noite!
Os médicos não lhe deram muita atenção, não. Deram-lhe nenhuma! Gente chorava, xingava... Gente sangrando, e Laudelino, lá: ai, ai, ai... Ui, ui, ui... Até que uma doutora de sorriso simpático – padrão global de dentição!, ordenou: bota o sujeito no soro. Bebida? Glicose nele!
Uma enfermeira de padrão de dentição de outra emissora, emendou: bebe mais filho de uma cadela, bebe. Está perdendo a perna, filho de uma égua. Bebe mais, filho de uma vaca!!!
O que que a puta da mãe dele tem a ver com isso, não é mesmo? Sentado numa cadeira de rodas com soro acima da cabeça... Ai, caralho! Ai... Puta que o pariu! Oh, meu Deus! Ai, ai, ai! Porra, como dói...
Doía nada. Era como se a perna quisesse correr, fugir dali. Ele agarrava a coxa com as duas mãos. Ai, meu Deus! A enfermeira berrava: segura senão ela foge pro boteco!
A doutora de cara globalizada observava e nada. Dizia nada. O soro pingava lento. Entre um pingo e outro, Laudelino: não pode ser real! Passava das onze da manhã, sentiu, de repente, vontade de cagar. Chamou a enfermeira que nem deu bola. Aumentava a vontade. Aquilo era um desejo, e dos grandes, uma necessidade profunda. Visão baça, corpo frio... Vou desmaiar, minha pressão está caindo... Enfermeira, eu vou cagar! Enfermeira! Enfermeira!... O cara vai cagar nas calças, bosta!
Uma moça de tamanho nem tanto global empurrou a cadeira até o sanitário mais próximo. Largou o infeliz, lá. Se vira, vagabundo!
O sujeito paga o imposto, um dos mais caros do país, e carrega ali aquela perna viva e pesada, meu!, cheia de dor, pra junto da privada ... Suor. Dor. Cagou, mijou, como nunca e quase do avesso e limpo: Enfermeira, eu já acabei! Nada. Ninguém ouviu. Ninguém respondeu. “Sons de vozes se altercavam sem se saber onde...” Enfermeira! Eu já caguei!!!
A moça veio buscar o pobre diabo mas não sem dizer: bebe mais satanás! Sorriu amarelo. O que será que eu tenho? Dói de mais. Minha perna dói de mais... Bebida.
Bebida. Quando o soro acabar vai passar... Passou nada. Passou o tempo. Passou a bebedeira. Passou uma moça de coração global com um carrinho de refeições. Deu-lhe uma gelatina de sabor plim-plim. Comeu forçado. Arrependeu-se. E se arrependeu mesmo: voltou a vontade de cagar. De novo, não! Bem que podia ser de vomitar. Gritou a moça, ia desmaiar, contração, mais dor... Eu vou cagar!
Desta vez apareceu um enfermeiro. Rapaz de trejeitos, jovem, gentil, e como se fosse médico sentenciou: você não pode cagar. Não era uma questão de poder, e, sim, de querer, e se não for rápido vai ser nas calças!
- Você não pode cagar, seu puto! Se cagar vai desmaiar. Vou colocar você deitado na maca, bebão!
Bicha do cacete! A essas alturas Laudelino não sabia mais o que estava acontecendo: se cagar desmaio? Mas que papagaiada é essa doutor?! O domingo avançava lerdo naquele lugar cheio de cheiros e choros.
- Vou levar este paciente para a ortopedia!No caminho por corredores e rampas surge uma animadora conversa:
- Quantos anos você tem?
- 42.
- Nossa, como você está acabado!
- Ai...
- Você bebe?
- Ui...
- Pára de beber senão vai se acabar...
- Acaba nada...
- Ta de cara inchada, ó!
Laudelino sorriu. Murcho. Mas sorriu.
Já na sala, o ortopê sem cabeça vem com essa: O que aconteceu? O filho de uma cadela, de uma égua, de uma vaca... de uma puta é você que está dizendo agora (e é mesmo!), bebeu pra dedéu. Tomou todas, e todos. Travou. Não se lembrava de nada mas respondeu com certeza: não sei! A voz sem cabeça insistiu: você caiu? Levou alguma pancada?
Nessas horas o cara fica encabulado, sufocado, acuado, confuso... Nunca mais eu bebo na minha vida!
- Não sei! É possível...
Arrancando suspiros de arrependimento pela noite infeliz encara o ortô com as radiografias:
- Talvez!
Balança a cabeça negativamente. Há uma fratura no fêmur. Torna-se necessário uma intervenção cirúrgica para colocação de placas, parafusos, pinos...
O cara gelô.
O doutor olhava para o moribundo com certa dose de preocupação, e ao mesmo tempo escrevia o relatório a respeito da perna que doía desde a manhã, quando deitada na porta do bar do Janca não conseguia se levantar, mexer-se nem para um lado nem para outro.
- Socorro! Socorro!
As pessoas passavam pelo passeio público, e nada. Ninguém olhava. Medo? Medo! Medo... Foi quando pelo local uma viatura da Guarda Municipal passeava e seus ocupantes se sentiram na obrigação de averiguar o meliante que ali, àquela hora do dia ainda dormia na calçada: fora levado ao P.S. Central.
Numa maca permaneceu enfaixada até a coxa, com um peso na sola do pé para tracionar, aguardando vaga num hospital público qualquer. Domingo. Dez da noite. Vagou um leito. Maravilha. Se vocês vissem a ambulância que transportou a perna! Cada curva, ai. Cada buraco, ui. A cada suspiro ai-ai, de aceleração e frenagem, ui-ui, do automóvel gritava até a Liberdade – bairro onde se localizava o hospital, o desgraçado!
Tudo protocolado, carimbado. Para o leito número 6 do quarto 302, com delicadeza, numa preparação de dor, impulso de contagem 3, foi colocado na cama. Ai, puta que o pariu! Um coral de gemidos saudou a chegada do novo inquilino. Que noite infernal!
As moças do banho chegaram logo cedo. Rasparam os pelos do pelado. Vamos, o doutor não pode esperar. Respirou fundo, pesado... será que eu escapo dessa ? Dobraram-lhe ao meio, uma picada na espinha... Cadê a perna? Que alívio! Medroso e sem pernas ouviu o zunir da furadeira. O corpo como se fosse saltar da mesa pulava como madeira seca sendo furada, lixada... batidas de martelo, zunires... parafusos apertados, e pronto: feito o serviço e treze pontos! Nada de dor. Nada de comer. Nada de beber. Nada. Ah! Cagar só conseguiu no sexto dia. Delícia. Alta!
A ambulância pra levar Laudelino pra casa chegou. Não era a mesma, por sorte. A casa sim, digo a ambulância.Três companheiros chapados num Chevette velho caindo aos pedaços, sem freios, sem documentos, e sem habilitação estava o piloto alcoolizado também... Meu Deus!
Sem freios o veículo confiante corria sem quase combustível e as pernas já não carregavam Laudelino é quem carrega a perna atrás da sorte buscando a vida empurrando a morte ... Meu Deus!...
Foram-se as telhas, telhados que nunca tive
O céu é cinza. Cinzenta é a tar(de) nesse cidade
O silêncio aumenta com a ausência de luz
Nesse cidade
Ardem as velas para o banquete solitário na parte alta
Nesse cidade
Abrem-se as celas para o porrete solidário na parte baixa
Nesse cidade
Vejo salas... Cadeiras macias... Cheias de vozes vazias
Nesse cidade
Nos bastidores de Maria a arte tem tom triste
Nesse cidade
Os arpejos de Luiz tem tom trastejante
Nesse cidade
O apito do trem tem tom não
Nesse cidade
O apito da fábrica também tem tom não
Não tem Tom e nem Tim?
Pede um fósforo para o Ibrahim (da Cobrasma)!
Tem não?!
Toma emprestado ao Augusto dos Anjos.
A Literatura tem
Necessidade!
Quem pode, pode!
Não me peça o que eu não posso!
Nem passe na boca
Um “p” (um papel)
No nariz, um troço!
Você pode pirar... eu vou espirrar
Espirrar...
Saia pela culatra, o tiro pode ferir
Matar! Quem sabe?
Eu digo não! Sonhar sim! Senhor
Pra que endoidar o coração?
Acredite, eu sei que os Andrades
Não lhe refugiarão!
Acredite, e nem a Casa de Cecília
Vai lhe dar guarida!
Se insistir, se me pedir, se mentir
Se passar na boca um papel
Mesmo que seja fininho, de seda
Com mel,
Finjo que posso, passo, não peço,
Tropeço!
Caio na fama, me vingo da velha
Virgem...
Perco-me na viagem,
Não volto... não volta... nem você
Nem eu... Nem ninguém!
De óculos vejo uma vela
Por sobre... uma outra
O fogacho diminui
O fagacho cresce
No balanço tênue do meu cochilar
O relógio: cá... lá... cá... lá...
Derretem lenitentes
Olheiros a zelar!
Se me velam
Como vê-las?
Prefiro-as vivas
Mortas não são velas:
Pavios e parafinas
Lá e cá... Lá e cá...
Cá, uma... Lá, outra...
Um tic-tum letárgico
Pulsando no tempo:
Registro e afeto!
Passa Alves
Passa Bandeira
Passa Cabral
Passa Drummond
Passa Meirelles
Passa Oswald
Derramam-se
Pronunciam-se
Obscurecei-nos
Entenebrecei-nos
Enquanto acesas
Um lacrimejar vital
Uma busca insidiosa
O prenúncio:
Finar-se
Enfim.
São Bento. São Bento. São Bento.
Para o espanto das cobras
Sigo livre a caminhar
O feijão. A abóbora. O milho.
O espantalho a me vigiar.
O pasto. A ponte.
Clarisse com a criança no colo a me espiar
Adeus medo do canavial
E o rio a me levar...
São Bento. São Bento. São Bento.
Para o espanto do povo
Consigo ziguezaguear
A violência. O desemprego. A corrupção.
A polícia a me vigiar.
A prostituta. O pastor.
Crianças sem Clarisse me espiam sem espiar
Meu Deus! Que lindo o carnaval
E o Rio a me levar...
traço o traço
traço o treco
traço o trigo
traço o troço
traço o truco
traça o troco mamãe
papai traça o tricô...
não troco bala
no troco não toco
o fogo no toco não
jogo a nega no jogo
não
nego a raça
do
nego não.
não troco bala no troco não
não toco fogo no toco não
não jogo a nega no jogo não
não nego a raça do nego não
não
troco bala
no troco não toco fogo
no toco não jogo a nega
no jogo não nego a raça
do nego não
Estava cansada.
Mais a perna esquerda.
Corri muito.
Atravessei o quarteirão no pique.
Na hora do “rush”.
Entre carros.
Bicicletas.
Gente.
Parou do outro lado da rua.
Beirando a calçada.
Encostou-se num poste fino.
Comprido. Sem lâmpada.
O sinal ficou verde.
Não atravessei.
Respirei pesado.
Raso. Mas pesado.
O farol abriu sete vezes.
Sentei. Abri a lancheira.
Lanchei. Tomei coca-cola.
Dei pra cachorra peluda que me lambia as pernas, um gole.
Parti com vermelho e tudo.
Morreu atropelada a cadela sem nome.
Quem mandou segui-la?
Chorei tanto. Tanto.
A esquina estava próxima.
O sino batia.
Corri pra nada.
O portão fechou.
Gritei: ei moço! Também pra nada.
Que bosta!
Voltei triste. Mas voltei.
No farol uma multidão.
O trânsito engarrafado.
Uma zoeira doida.
Janelas povoadas.
Papéis picados.
Máscaras. Serpentinas. Palhaços.
Zabumbas. Cornetas. Uma muvuca.
Uma bomba.
O povo sumiu.
Cerraram-se as portas. Janelas.
O farol amarelou.
A cachorra pariu ali treze cachorrinhas brancas.
Brancas não, pretas, todas pretas.
Pretinhas mamando no meio da rua.
Que espetáculo! Treze tetas pretas ocupadas. Bem chupadas!
O farol abriu. Ficou verde.
Eu fui. Triste mas fui.
Corri. Corri. Corri. Cansei de novo.
Dessa vez, a perna direita.
Parei na calçada e olhei pra trás.
As cachorrinhas sorriram-me.
É. Latindo!
Sorri também sem latir.
Segui puxando o cordão.
Abri o portão. A porta. Entrei. Entraram.
Papai também morreu atropelado.
Chorei tanto. Tanto.
As coitadinhas também.
Meu corpo tremia de raiva.
Ódio.
Matei todas enforcadas numa cordinha de nylon.
Num varal exposto ao sol. No fundo do quintal.
Sol das três. Ardente. Penoso.
Fui até o poço. Abrí a tampa.
Desci. O balde. Puxei água salobra.
Um gole bebi. Dois. Cuspi.
Cuspi de novo.
Tossi.
Sorri. Agora latindo!
Um pedaço da corda cortei.. Sete metros.
Fui até uma árvore. Um abacateiro. Subi.
A ponta da corda no galho mais alto.
Fiz um laço na outra ponta.
Botei no pescoço. Escorreguei.
Dependurada segurando firme num galho fiquei.
Comi abacates. Com caroço. Muitos.
Fiz xixi. Lá de cima escarrei
Mijei mesmo.
Caguei.
A corda soltei. Desci vagarosa.
Fui-me embora.
Fui ao centro ver a cadela.
Atravessei a rua e meu pai encontrei.
Morto. Sim.
Atropelado no meio da rua.
Já disse?
Sim!
Corpo esticado. Coberto de jornais.
Dos pés a cabeça. O farol vermelho. Aceso. Piscando.
Sirenes. Buzinas.
Ambulâncias. Camburões. Soldados.
Chuva. Muita chuva. Enchente.
Gritos.
Carros boiando. Geladeiras.
Televisores. Telefones.
Fogões. Mesas. Sofás.
Ovos fritos. Cozidos. Mexidos. Chocos!
Um inferno!
Cartazes. Faixas.
Panfletos em vermelho e preto abaixavam a carestia.
Outros diziam que onde o Presidente é o padeiro o pão é pequeno.
Uma festa!
Um bueiro.
É. Uma boca de lobo enorme e Babulina dentro.
O rio. Não de Janeiro. O Tietê. Podre. Podre-podre.
Babulina boiando nas águas de fevereiro.
O carnaval inteiro chorou.
Babulina desfilando nas águas serpentinadas.
De lantejoulas químicas futuristas, prateadas.
Temática do samba-enredo paulistano.